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Escrever é um ato de existência, rebeldia, resistência e estar no mundo.

sábado, 27 de novembro de 2021

SOLIDÃO

Há alguns anos me perguntaram

qual era o meu maior medo

– A solidão –

respondi, eu.

 

Até o dia em que ela

chegou de mala e cuia,

tirou seus sapatos elegantes,

pôs um disco na vitrola,

preparou um café...

 

Depois acendeu um incenso,

pegou um livro na estante,

sentou-se na poltrona diante da minha...

E só então, notou-me,

estática e apavorada

com sua presença.

 

De repente, passando-me a xícara

fumegante e cheirosa,

perguntou-me,

mostrando o livro em suas mãos:

– Já leu este?

– O que achou dele?

(...)

 

Estamos discutindo

Literatura

até agora.


Bia Crispim

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

QUADROS NA PAREDE 4

Quando eu botava

um disco na radiola

quem o ouvia era 

papai e mamãe...


Abraçados, mas não dançavam.


Bia Crispim

QUADROS NA PAREDE 3

Entre araras tucanos 

e outras aves coloridas

havia um gato

de olhos azuis azuis

como a água 

onde girafas gigantes

se equilibravam

para matar a sede.


O relincho dos cavalos

me faziam lembrar

que tudo aquilo era possível.


Bia Crispim


QUADROS NA PAREDE 2

Eram só casinhas

construídas entre morros

no meio da mata/ do mato.


Também havia uma igrejinha

que trazia para si uma rua lateral

de casas bem próximas,

geminadas.


Sobradinhos de velhas senhoras viúvas religiosas 

que corriam ao altar 

quando o sino tocava

e que cultivavam trepadeiras floridas

das que ganham as alturas, 

e gatos e tricôs e rendas e compotas de doce...


Mais ao longe

uma cidade se erguia à beira do rio

completamente margeado de canoas...


Me lembrava a cidade dos meus avós...

E num piscar de olhos 

eu era uma criança criando mundos em um infinito quintal.


Bia Crispim

QUADROS NA PAREDE 1

 Da cama eu via um por-do-sol

e gente elegante sob guarda-sóis

comendo a brisa à brisa do mar.


Crianças brincavam nas poças, 

erguiam seus castelos...


E quando o dia dava

- ADEUS!

- ADEUS!

eu atravessava uma ponte,

andava por um pequeno bosque...


E esperava a locomotiva alaranjada

que me tiraria 

de dentro desse quarto.


(Em breve, muito em breve)


Bia Crispim

UM DRAMA MAMBEMBE

Entre uma linha e outra,

materialização e emoção.


As palavras escorriam

uma a uma pela face.


E inaudíveis

embargaram-se na garganta.


Era uma cena de teatro

Palavras da velha atriz mambembe.


Um momento recriado na memória

tão arrebatador como fora.


Cai o pano, 

fecha-se a página...


Os aplausos a aquecem

até agora.


Bia Crispim