Esse é espaço de cri(ação). De pulsão criativa e criadora, de expor a voz de uma mulher, professora, Trans, nordestina e interiorana que tem muito a dizer e a provocar. Esse espaço é de fiar horizontes mais justos, mais bonitos, mais transparentes. Espaço de palavra-ação. Espaço de dar cria aos encantamentos, às belezas, aos fantasmas, aos medos e à revolta. Lugar de pensar e refletir. Lugar de poetar, contar e resistir. "A palavra me faz existir" - aqui eu existo, resisto e me exponho como sou.
Quem sou eu?
- Bia Crispim
- Escrever é um ato de existência, rebeldia, resistência e estar no mundo.
segunda-feira, 21 de agosto de 2023
AUSÊNCIA PRESENTE
quinta-feira, 3 de agosto de 2023
CHEGAAAAAAA! VOCÊ JÁ FALOU DEMAIS!
Durante mais de três anos fui colunista semanal para um site jornalístico local, porém, de forma inesperada e sem aviso prévio, o primeiro texto para julho de 2023 não foi publicado porque "tratava de temas sensíveis" e minha coluna semanal foi para o espaço. Pensei em encontrar outro veículo para continuar minha coluna... E finalmente decidi que reativaria meu blog, lugar onde não há espaço para censurar o que penso.
Agora, com novo nome e formato, o Fiando Horizontes vai ser alimentado semanalmente. As publicações continuarão a ser feitas nas sextas-feiras (respeitando minhas leitoras e meus leitores que responderam a uma enquente que fiz nos meus grupos de WhatsApp).
Essa semana, porém, fugirei da regra, visto que já estou com esse texto esperando para ser publicado há quase um mês. E porque hoje estou com vontade de gritar...
CHEGAAAAAAA!
VOCÊ JÁ FALOU DEMAIS!
Bia
Crispim – 09/07/2023 (data de escritura)
Parece que foi isso que ouvi quando questionei o porquê de meu texto não ter sido publicado: CHEGAAAAAAA! VOCÊ JÁ FALOU DEMAIS! Na hora, pega de surpresa, o que me veio foi um atordoamento, e em seguida uma raiva enorme, porque eu estava sendo silenciada.
E sim, eu falo muito, sobretudo quando preciso me defender. Sobretudo quando leio e ouço notícias de que um algoz está à solta destilando ódio e incitando o crime contra mim e a comunidade LGBTQIAPN+ a que pertenço.
Falar é necessário para que as pessoas que bebem a água podre dessa lagoinha não sejam transformadas em animais ferozes e cegos, sedentos de ódio, intolerância, julgamento e aniquilação.
Tenho que encontrar meios para que meu grito chegue o mais longe possível. E ele precisa ser potente, nascido do âmago do meu ser, para que possa acordar todas as pessoas envenenadas do seu torpor, da alienação e das inúmeras mentiras que são criadas e propagadas sobre minha comunidade.
Se me colocarem um berrante nas mãos, por que não usá-lo?!
Por que não posso esbravejar contra um inimigo comum de toda a comunidade
LGBTQIAPN+? Por que não posso alertar para que outras pessoas não sigam esses
falsos pastores? Por que me silenciar?
E esse silenciamento ocorre quando alguém surge a sua
frente e diz que você não pode usar mais esse berrante porque “está se
resguardando de assuntos que possam gerar algum tipo de denúncia ou alguma
repercussão negativa”. Nessa hora eu arregalo os olhos e indago: quem deveria
ser calado não é quem está incitando o ódio e o crime?
Na condição de perseguida e vítima do discurso criminoso e envenenado, deveria eu me calar porque falar desse assunto pega mal? HELLLLLOOOOO! Pare o mundo que eu quero descer! – adoro esse bordão, e ele cabe bem nessa história.
Se minha voz grita e reflete a voz de uma parcela considerável de uma comunidade que sobrevive a uma perseguição e às inúmeras violências há séculos, buscar “fugir de assuntos polêmicos, especialmente de repercussão nacional” não é um sinal de pacto com os violadores e propagadores do ódio e do crime?
“Quem cala, consente”, diz o ditado e eu o parodio: quem me cala, ou tenta calar, consente também. Então eu não posso aceitar que me digam CHEGAAAAAAA!. Não posso permitir que me silenciem, e ao contrário do que você pensa... NÃO, EU NÃO FALEI DEMAIS, EU TENHO MUITO A DIZER, A REFLETIR, A ANALISAR E A DENUNCIAR....
Por que estou gritando? Para que você acorde. Para que você
saiba que eu estou em estado de alerta e não vou me intimidar. E para que você,
desperta dessa hipnose, não seja conduzida a se transformar num ser de ódio e
de desamor ao seu próximo.
terça-feira, 1 de agosto de 2023
GATOS, ESCRITORAS, AVÓS E DESPEDIDAS
Gostaria de iniciar essa nova fase do meu blog, agora com outro nome e com outra proposta (a de publicar um novo texto semanalmente e mais voltada para a prosa que para a poesia - se é que é possível abandonar a poesia) com um outro texto, com um outro tema, mas as circunstâncias me encaminharam para escrever a crônica que segue.
Ela os batizava com os nomes mais simples e a partir daí
conversa com cada um chamando-os pelo nome. Aprendia suas manias e diferenciava
suas personalidades. Sabia dos pacifistas e dos brigões. Familiarizava-os. E
sua casa era uma casa de gatos.
Muitas das memórias afetivas que tenho da minha pequena grande
leoa Martiniana estão tomadas de gatos, seja descamando peixes e jogando
guelras e vísceras para a gataria, seja me puxando pelo braço e falando
baixinho pra me mostrar uma cesta por trás da porta da dispensa de alimentos
recheada de uma mamãe e sua prole miúda felina linda. Ela me fez amar esses
animais. Ela, minha avó, transferiu esse sentimento e esse “querer-bem” aos
bigodudos mientos...
Minha avó já partiu, mas me deixou um bocado dela. Todos
aqueles/as que partem, deixam, não é mesmo!? Ela me deixou tantas saudades (a
memória, às vezes, afaga o coração); me deixou tantas imagens lindas (às vezes,
marejo os olhos). Me fez gateira igual a ela.
Estou falando da minha avó gateira porque julho é o mês das
avós, é o mês de Sant’Ana, de Nanã. Estou falando dela para que eu possa criar
a imagem mais linda: minha avó, no céu dos gatos, recebendo e acolhendo
aqueles/as bigodudo/as que partiram justamente nesse mês de julho.
Recebendo “A Gata Cristie”, a gata poeta, que se despediu de
sua mãe humana, a colega escritora Mariam Pessah, argentina quase brasileira, no
dia dos/as escritores/as. Um dia antes do dia dos avós. Dia de Sant’Ana, dia de
Nanã Buruquê, a yabá anciã, a avó, minha avó Martiniana.
Recebendo meu “Eros”, que não ganhou esse nome à toa, ele era
um sedutor no andar, no olhar e no galanteio que só alguns gatos “Don. Juan” têm.
Eros que me deixou numa quinta-feira à noite, quando partiu pras suas andanças
Juanescas e seduzido pela minha avó, partiu sob seus cuidados. Deve estar
comendo peixe fresco.
Recebendo Tibério Tirésias, o Sancho Pança, a bola de pelo
preta que usava gravata branca da amiga escritora/professora Kalina Paiva. É
essa a imagem linda que quero criar. Minha avó e seus novos três filhos: “A
Gata Cristie”, “Eros” e “Tibério Tirésias”. Filhos de três mulheres escritoras.
Filhos de três mulheres que estão menos felizes.
Mas para que essas saudades, para que essas ausências não tomem conta dos nossos corações, ofereço essa imagem às amigas escritoras e a mim mesma: uma avó bondosa, louca por gatos, cuidando dessas criaturinhas que, assim como nossas avós, nos encheram de tanto afeto, de tanta poesia e de tanta humanidade.