A Vovó Martiniana
Era um dia ensolarado, brilhante e quente. O céu azulíssimo lembrava os olhos de minha avó.
Minha cabeça voltou no tempo e diante de mim surgiu a imagem daquela mulher pequena, branca, de olhos azuis e cabelos curtos, sorriso alegre e vestidinho florido um pouco abaixo dos joelhos, abria-me os braços cheia de carinhos e afagos.
Levava-me para a cozinha onde o fogão de lenha preparava doces, cocadas de goiaba.
Como os cheiros confundiam-se ali. Cheiro de fogo, de madeira queimada, cheiro de goiaba e coco e peixe que chiava sobre as tachas de ferro. Cheiro de alfazema que exalava do corpo de minha avó com os olhos de mar e céu.
Se os cheiros eram bons, imagina os sabores. Inconfundíveis. O café forte e amargo que aprendi a beber descobrindo seu gosto. A sopa deliciosa de "boquinha de noite". A coalhada adoçada com açúcar mascavo ou mel - colhido ali mesmo, no quintal.
Minha memória fez-me ter... Quantos anos?! Talvez 10, ou menos. Fez meus olhos marejarem.
Aquela mulher ensinou-me o que era "permitir".
Permitir ser criança, sem fronteiras, que explorava o grande "muro" correndo, brincando, pulando, colhendo folhas, flores, frutas. Mexendo nas hortas, perseguindo as lebres, fugindo de canoa pelo açude, que banhava a porta de trás da casa.
Vovó ria, com seus olhos de mar. Martiniana era seu nome.
A alegria em ter-nos por perto, deixava esse mar lindo, cheio de verão. Cuidava de todos, aninhava todos, como gata mãe que era. E como gostava de gatos!
Seu lar era uma cama de gatos, muitos, tantos, cores, tamanhos, miados e peculiaridades. Havia gatos-filhos, mimados, com lugar cativo embaixo da rede de vovô. Ou com cama reservada para dividir com os visitantes.
Lembro-me de vovó preparando peixes frescos, recém pescados para todos os seus meninos e meninas felinos.
Acocorada com as saias presas às pernas, ela tirava as escamas e vísceras, o fel amargo e deixava o filé, as guelras para serem disputados à tapas e grunhidos pelos bichanos.
Grande leoa, minha vó pequena.
Entendia daquele universo animal como se sua espécie fosse outra, felina. (E qual mulher não o é?)
Sua grande festa era ver a casa cheia em dias de Nossa Senhora dos Remédios. Devota, religiosa, dedicava parte de seu dia às orações.
Dormia cedo, acordava cedo. Atividades para o dia todo não faltariam. Mulher enérgica, plena de vida e alegria. (Quanto não herdei de ti?!)
Muito herdei daquela pequenina.
Herdei amor, herdei cozinha, herdei felinidade, herdei doce, herdei peixe solto dentro d'água, herdei sorriso, herdei aconchego e recebimento, herdei oração e silêncio, herdei energia e agilidade, herdei a pele branca.
Não herdei uma coisa: os seus olhos azuis de mar.
Mar de Martiniana.
Mar que me traz em ondas de lembrança a figura de minha avó, a qual, decerto, está no céu, tão azul e lindo como o dia de hoje.
Bia Crispim