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domingo, 4 de dezembro de 2011

A LOBA

 Em uma tarde de sábado, estava eu ao Facebook, quando Matheus, meu parceiro literário, contou-me uma história de um lobo que vira na estrada... Aquele lobo saiu das palavras ditas por ele e invadiu minha mente. Inquieta, pedi licença para me apropriar de seu lobo e produzir um conto que fervilhava dentro de mim... Matheus, que me sente como poucos, percebeu que este seria nosso segundo tema de produção coparticipativa... E correu a produzir o seu, também... 
Eis o meu texto, e na sequência, postarei o dele, com os devidos consentimentos.




O cerrado estava encharcado, o céu desmanchava-se sobre a terra vermelha. E nas estradas sem fim de compridas visualizava as paisagens da capital do país planalto central Brasília. Cerrado que reserva mistérios, OVNIs e energia do marco zero. Através do vidro embaçado as ideias misturavam-se com a sonolência que me abatia no fim do dia.
A água deu trégua e a paisagem mudou. O astro que nos enxuga surgiu, em toda plenitude de despedida. O sol a pôr-se deixava o mundo pegando fogo, alaranjando tudo, vermelho incontrolável que pintava o horizonte, e como labareda, lambia tudo, ensanguentando os meus olhos de vida em combustão.
Lindo!9
Quando de repente vi um lobo-guará na beira da estrada. Um lobo-guará, cerca de 1 metro e 30 de pelagem avermelhada, que ao contrário dos outros, é solitário, não anda em bandos, me fitou. Fixou seus olhos nos meus e num momento epifânico e sagrado estava eu consumida de arrepios por todo o corpo. Como bruxo, ele dissecou minha alma.
Num átimo algo se movera dentro de mim. Sai do carro e farejei seu cheiro de carnídeo, carnívoro, carnidae. Exalei por minhas fuças, senti cheiro de sangue, de fome de bicho e meus ouvidos aguçaram-se, meus sentidos evoluíram. Seus olhos não deixavam de fitar os meus, e diante daquele animal de patas negras como a noite, um filme de vida que não era de gente, atravessou minha mente: caças, cópulas, gestação de 65 dias, brigas vorazes de dentes e sangue e morte, perseguições, corridas frenéticas, bombeamento de sangue acelerado...
O sol ardia-me as vistas e a noite parecia brilhar de tão clara... A noite me era dia. Visão de lobo, visão de bicho, de caçador noturno, de quem não precisava mais de óculos... Ficou pela estrada... Eu era cerrado... adentrava mato a dentro seguindo, farejando aquele ser que, vez em quando, parava e me fitava mais uma vez, como me conduzindo... Eu entendia que tinha que ir com ele. (Pra onde? Não sabia!) Mas sentia o impulso de ir... O mundo era negro e a imagem de uma agoa’rá vermelho, feito bola de fogo que se movia com destreza trilhava veredas que eu já conhecia. (Como?)
Paramos diante de uma toca onde filhotes grunhiam fome e sede. Bichinhos pretos de penugens brancas, não amadurecidos, não rubros ainda. Eram seus. Meninos lobos que nasceram de fêmea que não se sabe.
Olhou-me fixamente, entrou na minha alma e me pediu: - Amamenta-os! 
De quatro, loba obediente, entrei na toca, e numa nova fotografia de Rômulo e Reno, expus minhas tetas para fora, e as duas bolas de pelo negro, vorazmente me sugaram... Êxtase de mãe, de loba, invadiu meu ser e lá permaneci como fêmea que não sai da toca, temerosa de perder seus filhos para os predadores. O mínimo de ruído me vazia rosnar, mas era ele quem voltava com o alimento. O macho nutria-me, para que sua prole vingasse.
O tempo passou... sem que eu assim o percebesse. E quando saí da toca o mundo estava diferente, os lobinhos, também, já saíam para caçar pequenos roedores, aves e ovos. Era noite de céu estrelado e uivando chamei pelo macho que não tardou. Num impulso animal, ele me possuiu, cópula de cães, grunhidos e mordidas, jogos de sedução animalescos... Já não era mais mulher, era fêmea, era loba... Que no cio, fazia outros lobos digladiarem entre si... Mas era ele quem vencia e que me possuía, sempre. Teríamos uma ninhada...
E extasiados, saímos, nós dois, para alimentar a noite que crescia dentro de mim!


Bia Crispim