Todo.
Apoteótico.
Feito Apolo cavalgando o Sol.
De corpo uníssono, para ser devorado de uma só vez.
Não senti o gosto nem o prazer que sonhara.
Teu sabor não foi tão bom
e tu ficaste preso na garganta
como espinha de peixe
ou angústia
ou choro de remorso.
Cuspi-te fora.
Apesar de a boca cheia d'água,
sedenta de ti e voraz.
Aí veio o tempo em que te quis as partes.
Todas elas.
Uma de cada vez.
Petiscos para meu prazer.
Primeiro comi teu cheiro
e o olfato despertou-me a textura
e o sabor de tuas carnes.
Depois comi teus olhos
e eles me encheram de vida
e paixão
e delicadeza
e encanto.
Requintei,
sensibilizei meu paladar
e teu sabor me foi o melhor.
Em seguida comi tua boca
e nela veio teu sorriso
e tua língua
e teu hálito.
Entendi tuas palavras,
tuas ideias
e a fome que sentias de mim.
Descobri ali que tu também me querias
em teu nariz e olhos,
em tua boca e pele,
em teu coração.
Daí almocei-te
(entrada, prato principal, sobremesa e um cafezinho para um cigarro.)
E por último deixei-me virar ceia.
À noite, tarde, toda.
Por partes,
aos bocados,
em pedacinhos.
Até que nos consumimos
e viramos sol.
Só no amanhecer.
Bia Crispim