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terça-feira, 1 de agosto de 2023

GATOS, ESCRITORAS, AVÓS E DESPEDIDAS

Gostaria de iniciar essa nova fase do meu blog, agora com outro nome e com outra proposta (a de publicar um novo texto semanalmente e mais voltada para a prosa que para a poesia - se é que é possível abandonar a poesia) com um outro texto, com um outro tema, mas as circunstâncias me encaminharam para escrever a crônica que segue. 


GATOS, ESCRITORAS, AVÓS E DESPEDIDAS
Bia Crispim – 01/08/2023
 
 
Minha avó Martiniana era uma gateira raiz. Daquelas que não podia ver um gato na rua que trazia logo pra casa e o transformava em filho. Se estava doente, ela fazia suas próprias alquimias curativas, colhendo suas ervas no quintal e, logo, logo, o bichano estava saudável e gordo, comendo peixe fresco, pescado pelos meus tios e avô.


Ela os batizava com os nomes mais simples e a partir daí conversa com cada um chamando-os pelo nome. Aprendia suas manias e diferenciava suas personalidades. Sabia dos pacifistas e dos brigões. Familiarizava-os. E sua casa era uma casa de gatos.
 
Muitas das memórias afetivas que tenho da minha pequena grande leoa Martiniana estão tomadas de gatos, seja descamando peixes e jogando guelras e vísceras para a gataria, seja me puxando pelo braço e falando baixinho pra me mostrar uma cesta por trás da porta da dispensa de alimentos recheada de uma mamãe e sua prole miúda felina linda. Ela me fez amar esses animais. Ela, minha avó, transferiu esse sentimento e esse “querer-bem” aos bigodudos mientos...
 
Minha avó já partiu, mas me deixou um bocado dela. Todos aqueles/as que partem, deixam, não é mesmo!? Ela me deixou tantas saudades (a memória, às vezes, afaga o coração); me deixou tantas imagens lindas (às vezes, marejo os olhos). Me fez gateira igual a ela.
 
Estou falando da minha avó gateira porque julho é o mês das avós, é o mês de Sant’Ana, de Nanã. Estou falando dela para que eu possa criar a imagem mais linda: minha avó, no céu dos gatos, recebendo e acolhendo aqueles/as bigodudo/as que partiram justamente nesse mês de julho.
 
Recebendo “A Gata Cristie”, a gata poeta, que se despediu de sua mãe humana, a colega escritora Mariam Pessah, argentina quase brasileira, no dia dos/as escritores/as. Um dia antes do dia dos avós. Dia de Sant’Ana, dia de Nanã Buruquê, a yabá anciã, a avó, minha avó Martiniana.
 
Recebendo meu “Eros”, que não ganhou esse nome à toa, ele era um sedutor no andar, no olhar e no galanteio que só alguns gatos “Don. Juan” têm. Eros que me deixou numa quinta-feira à noite, quando partiu pras suas andanças Juanescas e seduzido pela minha avó, partiu sob seus cuidados. Deve estar comendo peixe fresco.
 
Recebendo Tibério Tirésias, o Sancho Pança, a bola de pelo preta que usava gravata branca da amiga escritora/professora Kalina Paiva. É essa a imagem linda que quero criar. Minha avó e seus novos três filhos: “A Gata Cristie”, “Eros” e “Tibério Tirésias”. Filhos de três mulheres escritoras. Filhos de três mulheres que estão menos felizes. 

Mas para que essas saudades, para que essas ausências não tomem conta dos nossos corações, ofereço essa imagem às amigas escritoras e a mim mesma: uma avó bondosa, louca por gatos, cuidando dessas criaturinhas que, assim como nossas avós, nos encheram de tanto afeto, de tanta poesia e de tanta humanidade.