Gostaria de iniciar essa nova fase do meu blog, agora com outro nome e com outra proposta (a de publicar um novo texto semanalmente e mais voltada para a prosa que para a poesia - se é que é possível abandonar a poesia) com um outro texto, com um outro tema, mas as circunstâncias me encaminharam para escrever a crônica que segue.
Ela os batizava com os nomes mais simples e a partir daí
conversa com cada um chamando-os pelo nome. Aprendia suas manias e diferenciava
suas personalidades. Sabia dos pacifistas e dos brigões. Familiarizava-os. E
sua casa era uma casa de gatos.
Muitas das memórias afetivas que tenho da minha pequena grande
leoa Martiniana estão tomadas de gatos, seja descamando peixes e jogando
guelras e vísceras para a gataria, seja me puxando pelo braço e falando
baixinho pra me mostrar uma cesta por trás da porta da dispensa de alimentos
recheada de uma mamãe e sua prole miúda felina linda. Ela me fez amar esses
animais. Ela, minha avó, transferiu esse sentimento e esse “querer-bem” aos
bigodudos mientos...
Minha avó já partiu, mas me deixou um bocado dela. Todos
aqueles/as que partem, deixam, não é mesmo!? Ela me deixou tantas saudades (a
memória, às vezes, afaga o coração); me deixou tantas imagens lindas (às vezes,
marejo os olhos). Me fez gateira igual a ela.
Estou falando da minha avó gateira porque julho é o mês das
avós, é o mês de Sant’Ana, de Nanã. Estou falando dela para que eu possa criar
a imagem mais linda: minha avó, no céu dos gatos, recebendo e acolhendo
aqueles/as bigodudo/as que partiram justamente nesse mês de julho.
Recebendo “A Gata Cristie”, a gata poeta, que se despediu de
sua mãe humana, a colega escritora Mariam Pessah, argentina quase brasileira, no
dia dos/as escritores/as. Um dia antes do dia dos avós. Dia de Sant’Ana, dia de
Nanã Buruquê, a yabá anciã, a avó, minha avó Martiniana.
Recebendo meu “Eros”, que não ganhou esse nome à toa, ele era
um sedutor no andar, no olhar e no galanteio que só alguns gatos “Don. Juan” têm.
Eros que me deixou numa quinta-feira à noite, quando partiu pras suas andanças
Juanescas e seduzido pela minha avó, partiu sob seus cuidados. Deve estar
comendo peixe fresco.
Recebendo Tibério Tirésias, o Sancho Pança, a bola de pelo
preta que usava gravata branca da amiga escritora/professora Kalina Paiva. É
essa a imagem linda que quero criar. Minha avó e seus novos três filhos: “A
Gata Cristie”, “Eros” e “Tibério Tirésias”. Filhos de três mulheres escritoras.
Filhos de três mulheres que estão menos felizes.
Mas para que essas saudades, para que essas ausências não tomem conta dos nossos corações, ofereço essa imagem às amigas escritoras e a mim mesma: uma avó bondosa, louca por gatos, cuidando dessas criaturinhas que, assim como nossas avós, nos encheram de tanto afeto, de tanta poesia e de tanta humanidade.