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Escrever é um ato de existência, rebeldia, resistência e estar no mundo.

domingo, 25 de março de 2012

EROS E EU

    O amanhã mal surgia quando o sol pulsou dentro de mim. Energia que viajava por entre as veias e vazava pelos poros em suores todos.
    Ao meu lado estava Ele, sonolento de tanto se doar. Era Eros, o meu amado que dormia a profundeza de seu ser para se multiplicar à noite, nas camas, relvas, becos, bancos de praça, ou onde quer que o Amor brote.
    Distribuía-se gratuitamente e enchia o mundo de bondade, de carícias, de doação e entrega. Provocava os homens, atiçava as mulheres e uniam-nos, todos, de todas as formas, sem preconceitos.
    As duas partes que um dia foram uma, encontravam-se novamente, graças a Ele. E entrelaçadas, volúpia e luxúria, simbiotizavam-se, trocavam fluídos, de agora um só ser, e adormeciam extasiados.
    Eros despedia-se e vinha para minha cama. Desde pequeno era assim, e aninhava-se entre minhas entranhas, entre minhas coxas, entre meus lábios e braços. Esgotava-se em mim, para mim e dormia o sono dos justos.
    Seus cachos enrolavam-se entre meus dedos. 
    Acariciando-O, admirava-O. Eu tinha um Deus em minhas mãos, tão puro e infante e frágil, adormecido sob os lençóis, sonhando sonhos de Amor.
    Quando acordava, faminto, encontrava a mesa farta e alimentava-se e alimentava-me de si, depois.
    Então saía por aí, dividindo-se e fazendo unir. 
    Quando retornava... mesmo ritual. Mas sempre novo, sempre aceso, sempre voraz. E seu corpo encontrava minha alma para sermos uníssono.
    Sonhamos, um dia, com o que colheríamos do nosso cotidiano - seriam seres completos?! 
    Entristecemo-nos por esta ideia, pois se completos, não buscariam mais sua outra metade. Desistimos de procriar, mas não de distribuir nosso maior fruto: o Amor.
    Eu, benevolente, enchia-O de cuidados e mimos e delicadezas. E Ele me presenteava com o sol que ardia dentro de si quando me possuía.
    - "Psiquê", me disse um dia, "já ouviste a história que dizem por aí? Que te proíbo de ver meu rosto?"
    - "Quem diz isso?", perguntei.
   - "As gentes incompletas, que ainda não encontraram sua outra metade."
    Rimo-nos. E do sorriso brotou felicidade, e da felicidade, o desejo de nos unir.
    Eros beijou-me toda e completamente, e sorvi seu corpo com sede de quem, enlouquecidamente, ama.
    Nem percebemos, trancados no quarto, quando a lua gritou que já era noite e que o mundo todo precisava de Amor.


Bia Crispim

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