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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CONSTRUÍ UM MUNDO DE DELÍCIAS

Sabe uma criança que nasceu como quaisquer outras? Eu fui assim! Mas me tornei uma pessoa adulta que fugiu ao padrão e que ficou diferente aos olhos do mundo.
Nasci menino e o mundo descobriu-me mulher.
O processo de metamorfose e as situações pelas quais passei - Vixe! - caberiam num romance, dividido em tomos, seria uma saga... Então não vou falar disso, requer tempo, tempo, tempo...
Vou falar do mundo que construí para mim.
O mundo em que vivo e que acreditei tanto ser real e possível, aconteceu sem esforços exagerados: meu mundo de delícias.
Quando criança, brincava de boneca com minha prima Janaina. "Eu as maternava" - como já disse Zila Mamede.
Nunca soube se era o cônjuge ou a mãe! Mas tudo era muito natural.
Na adolescência, minhas afetações foram transformadas em bom humor, espontaneidade e risos. Meus amigos viam uma palhaça em mi, acredito. E tudo era diversão.
Quando percebi que existia preconceito, fiz de conta que não existia, fiz-me de doida e o mundo passou a me "tolerar", a me engolir.
Inicialmente acho que foi muito amargo pra ele. E eu? Nem, nem... (Assim eu pensava.)
Criei uma postura de respeito e passei a tê-la diante de tudo. Integrei-me sorrateiramente nos círculos sociais... E lá fiquei... Com pouco medo e vergonha. (Apesar de ser uma sem-vergonha de carteirinha). 
Vergonha! De quê? De ser eu mesma? (Dentro da minha bolha de proteção, inocentemente eu pensava assim.)
Como uma gata, silenciosamente deitei no mundo e com garras (nem tão afiadas assim) transformei-o em uma bola de fios, um novelo para brincar.
Enganchei-me várias vezes, confesso. Mas consegui me desvencilhar. Ficava tenebrosa e arisca um tempo, mas, lá estava eu com o novelo, novamente.
O mundo começou a me ensinar e eu comecei a aprender e depois a ensinar, também. E isso virou vício. 
Quando o mundo percebeu, eu já fazia parte dele, numa aparente "normalidade".
Alguém, um ou outro, estranhava-me, questionava: "Que bicho é esse?" E o bicho (eu) se apresentava como amiga de, irmã de, filha de, conhecida de, professora de... (Vivia em minhas bolhas de proteção.)
E o mundo - ah mundo danado, achando-se sabedor de tudo, que já viu tudo - deparou-se uma lição de diversidade, respeito e convívio. (Mas não foi o melhor aluno.)
Fiz meu mundo, apesar de...
Adaptei-o a mim o quanto pude. Transformei-o em meu habitat e fui aceita em alguns lugares. Talvez pela sutileza ou naturalidade como o deixei me conhecer.
Hoje ele se encaixa em muitas das minhas necessidades. Sinto que ele necessita de mim, às vezes, e não raras. Tornei-me importante para ele. (É nisso que eu preciso crer.)
Em alguns casos, aconteceu como em O pequeno príncipe: "Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas." 
E como nos cativamos na maior parte das situações, como esse processo foi recíproco, tornei-me amiga do mundo e de muitas de suas manias e ele, meu amigo, também.
Ficamos responsáveis pelo que somos um para o outro. 
O mundo me pertence e eu a ele. Trato-o bem, cuido bem, porque meu mundo precisa ser  todo de delícias. Mesmo que seja utópico!


Bia Crispim

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